Obra:"Tratado da Argumentação", Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, ed. Martins Fontes, 654 páginas, Argumentação; Lógica.
Por muito tempo se considerou que as Ciências Humanas só teriam valor se fossem estudadas sob a perspectiva analítica, através de um formalismo lógico, caso contrário não teriam caráter “científico” de fato. Este fundamento começou a perder sentido a partir da obra de Chaïm Perelman, em especial o “Tratado da Argumentação” (“Traité de L’Argumentation”), escrito em parceria com L.O.-Tyteca, que qualifica as Humanas dentro do possível e relativo, dentro do interpretável, e não do verdadeiro e absoluto, e por isso, portanto, devem ser estudadas através da dialética, cuja base é a argumentação.
Tanto os conceitos “analítica” e “dialética” vêm do “Organon”, obra do filósofo grego Aristóteles, que considerava a demonstração e a argumentação com o mesmo peso, mas que deveriam, no entanto, ser usadas em áreas diferentes, dependendo do objetivo do raciocínio (o verdadeiro ou o possível, respectivamente). Com os séculos, porém, a importância da dialética (e conseqüentemente da retórica) foi desprezada, até recobrar seu valor com Perelman. Contudo, o que o autor do “Tratado da Argumentação” faz não é simplesmente papaguear o discurso esquecido de Aristóteles. Perelman vai mais longe, e dá uma nova visão para o conceito dialético, tanto que chama sua tese de “Nova Retórica”.
Hoje, podemos configurar as Ciências Humanas de um modo completamente diferente, principalmente em relação ao início do séc. XX, quando o formalismo analítico dentro da área atingiu seu ápice (a exemplo de Hans Kelsen e sua pretensa “Teoria Pura do Direito”). Esta nova perspectiva garant
e a especificidade da área, além de ressaltar a importância das matérias que compreende. Mas que fique claro que tal delimitação é concernente ao pensamento, aos métodos de cada área (digo, Ciências Humanas e Exatas) alcançar, no primeiro caso o possível e no segundo, o verdadeiro, mas não versa sobre uma restrição dos profissionais em sua especificidade, até por que cada vez mais tem sido exigido um domínio tanto de um quanto de outro campo.
O alcance da obra de Perelman e Tyteca vai, certamente, muito além da pretensão inicial dos autores, que era recobrar a função e importância do pensamento dialético, e ampliá-las sobre uma nova perspectiva. Ela reconfigura, de muitas formas, o estudo das matérias referentes às Ciências Humanas, e lhes garante especificidade no método de raciocínio. Disto conclui-se a importância inquestionável do “Tratado da Argumentação” para a filosofia, e principalmente para todos aqueles que usam a palavra como ferramenta. Leitura obrigatória.
Imagem: Jean-Jaurès à la tribune (detalhe), de Jean Verber.
Sinceramente
ResponderExcluirTermine seu curso com muito louvor, você merece.
Descobriu seu verdeiro gosto no limite do tempo, uma decisão sábia, nem um pouco precipitada e que deu certo. Parabéns !